A Matemática da Mostra

21 12 2009

(Matéria publicada no blog http://nomundodocinema.blogspot.com dia 5 de novembro de 2009)

Maratona de filmes se torna uma verdadeira corrida contra o tempo na hora de coordenar a exibição de mais de 400 filmes

14 dias, 424 filmes numa média de 100 sessões por dia, realizadas em 26 salas de exibição, espalhadas por São Paulo. Ufa! Por trás de números como esses, uma equipe de logística opera dia e noite, sem parar para manter a Mostra funcionando a todo vapor. Quem vai assistir a algum filme da Mostra relaxa no escurinho, com sua pipoca e refrigerante em uma sala com ar condicionado. Mas nem imagina a trabalheira que existe nos bastidores para colocar o filme pronto na tela do cinema.

Tudo começa em agosto quando os filmes são selecionados. A partir daí é uma corrida contra o tempo, em que se entra em contato com os donos das cópias e os responsáveis por festivais de cinema que estão com os filmes. É uma saga itinerante que atravessa o mundo numa viagem até chegar ao Brasil. Aí os filmes chegam ao aeroporto internacional de São Paulo e ficam atracados por uns dois dias até a revisão de documentos e liberação.

A equipe de logística recebe o filme e depois é feita a programação dele. Os filmes nacionais têm um percurso mais tranquilo, pois vêm por intermédio das distribuidoras. “É uma corrida em que tem filmes que saem direto do aeroporto para a sala de exibição. Filmes que vêm de outros festivais, são os que têm data mais apertada para chegar. Eles são os últimos a chegar e os primeiros a sair. Há filmes que chegam, fica só três, quatro dias na Mostra porque têm data para ir embora para um outro festival”, explica Adrianne G. Stolaruk, coordenadora de tráfego de cópias da Mostra de São Paulo.

PASSEIO
Com a programação montada, os filmes que vão chegando são guardados em um galpão, localizado no estacionamento do Conjunto Nacional. Lá, prateleiras são os abrigos temporários para eles enquanto não saem por São Paulo para serem exibidos. Diversos estojos, latas e caixas que chegam a pesar 25 quilos lotam o pequeno espaço do galpão. “Há filmes que vêm em latas especiais e têm de devolvê-los na mesma embalagem que vieram. É preciso ter o cuidado de marcar o filme que veio de tal caixa e aí quando formos devolver, entregar na caixa certa”, afirma Stolaruk.

A equipe de logística faz uma revisão do dia anterior de todos os filmes que têm de sair no dia seguinte e já se separa os formatos de cada filme: digital (HDCam, Digital Betacam, DVCam e Betacam), película (35mm) e sinal digital Rain via satélite. “Quanto aos filmes em película, temos duas revisoras que desenrolam os filmes, para analisarem se o filme está amassado, furado e se o filme está na ordem certa. Isso é feito antes e depois da exibição do filme”, declara Bruno Logatto, coordenador de tráfego de cópias.

Então é hora de fazer o transporte dos filmes que serão distribuídos pelas 26 salas que integram a Mostra. São quatro carros que percorrem os itinerários das salas para entregar os malotes. “Separamos e identificamos cada filme e a sala em que vão ser exibidos, prontos para serem distribuídos pelas salas para não haver erro. No começo do dia os filmes saem da sede da Mostra e são levados para as salas de exibição e no final do dia ou na manhã seguinte são recolhidos e levados ou para a sede ou para outras salas. Há as viagens intermediárias em que um filme é exibido em dias seguidos. Por exemplo, um filme entra às 21h em um cinema e às 15h do dia seguinte em outra sala”, conta Logatto.

IMPREVISTOS
Um fato que ronda a rotina de cinéfilos da Mostra é a constante mudança de horários e salas de exibição, mas Stolaruk esclarece que isso acontece porque o filme em questão não chegou a tempo, está preso na alfândega ou por causa de problemas com a documentação. “Às vezes pedimos em um formato e é mandado em outro. Houve o caso de um filme que viria em película, mas em função de um problema em outro festival, enviaram uma cópia digital. Como nem todas as salas têm projeção digital, por causa da mudança do formato, precisa também mudar a sala de exibição”.

Outra preocupação é a legenda eletrônica que alguns filmes precisam ter. Um exemplo é o filme sueco Metropia. Ele foi exibido no Festival de Veneza, e em função disso, estava com legendas em italiano. Quando o filme veio para o Brasil foi necessário exibir o filme com legenda eletrônica. Ou seja, a equipe da Mostra pede uma lista de diálogos do filme e a envia para uma empresa que faz a tradução e digitalização dos diálogos.

Durante a exibição do filme, uma pessoa fica na sala de exibição com um computador e ao longo dele, vai soltando as legendas abaixo da tela de projeção. “É engraçado porque se há uma cópia em turco, chinês e não tem legenda nenhuma, fica difícil saber quando cada frase da legenda vai entrar. Então a pessoa encarregada fica atenta e até faz um treino antes do filme ser exibido”, afirma Stolaruk.

Quando se frequenta a Mostra parece fácil a organização da estrutura de exibição de filmes. Mas não é assim. “Começamos a trabalhar em agosto e as datas mudam toda hora, os filmes não chegam no formato que pedimos… É uma loucura que exige pensar em várias coisas ao mesmo tempo. É um quebra-cabeça conseguir coordenar tudo. Acho instigante e adoro essa loucura porque tudo é muito rápido. É um desafio, acho gostoso. Não vejo a hora de acabar, mas não vejo a hora de começar de novo (risos)”, brinca ela. É assim que funciona a dinâmica da logística da Mostra. No ano que vem quando você ver a alteração de datas e salas na última hora, lembre-se do árduo labor, que é organizar a Mostra de Cinema de São Paulo.

Foto: Mário Villaescusa





Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo – “Diálogos próximos”

22 02 2008

Texto originalmente publicado em agosto de 2006 no blog Kinoforum Crítica Curta.

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DIÁLOGOS PRÓXIMOS

Em 2005, Kleber Mendonça Filho caiu nas graças da crítica e faturou prêmios e elogios com seu filme “Eletrodomésticas”. A dona de casa controlada por uma rotina envolta em máquinas de todo tipo fundia-se aos eletrodomésticos de sua casa no filme de dois anos atrás. Esse ano seu novo curta “Noite de sexta, manhã de sábado” também vêm impressionando. A sala lotada da sessão “Panorama Brasil 1” arrancou aplausos do público. Após a sessão, o diretor ainda respondeu perguntas da platéia sobre as filmagens do curta.

Trata-se de uma história bem construída entre dois personagens distantes. Ele está em Recife e ela na Ucrânia. Os dois buscam uma forma de entrar em contato um com o outro, e a conversa dos dois por telefone vai revelando um diálogo delicado sobre o casal sem pormenorizar a questão que os separa. A forte união dos dois vai sendo construída a partir de elementos visuais tais como o sol e o mar. O mesmo sol e o mesmo mar vistos do outro lado do mundo, a mesma água que toca os dois países, a mesma luz que pode ser vista de todos os cantos do planeta. A sensação dos pés tocando a areia e as lembranças de quando estiveram juntos. O diálogo constrói a história desses dois personagens que tentam uma proximidade momentânea frente a distância física que os separa.

A restrição do tempo imposta pelo curta não impossibilitou o diretor de alongar conversas, esticar o tempo. O filme flui em seus diálogos. A câmera na mão da a imprecisão certa diante da precisão da conversa dos personagens. Tudo com muita simplicidade.





Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo – “(re)Descobrindo Pixinguinha”

22 02 2008

Texto originalmente publicado em agosto de 2006 no blog Kinoforum Crítica Curta.

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(RE)DESCOBRINDO PIXINGUINHA

Confesso que nunca fui fã de Pixinguinha, mal o conheço. Nem ao menos saberia dizer o nome de uma música sua. Mas mesmo assim o documentário de Thomas Farkas, “Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba”, me tocou.

Trata-se das filmagens de um show de Pixinguinha no Parque do Ibirapuera feitas por Farkas em 1954, nos festejos do IV centenário de São Paulo. Essas imagens foram encontradas quase 50 anos depois, quando o diretor remexia alguns filmes velhos. Ele decidiu então revelar o negativo que encontrou e se deparou com imagens suas nunca antes vistas. Mas havia um problema: o filme estava sem som. Aliás, a filmadora de Farkas não gravava som, afinal estamos falando de um filme de 1954.

Foi preciso fazer um arranjo para que aqueles instrumentos e batucadas fizessem sentido. E foi então que aquelas imagens ganharam vida. Pode-se compreender os sorrisos e expressões nos rostos daqueles músicos que cantavam com tanto entusiasmo.

O documentário de Farkas fala exatamente sobre isso. Sobre esse processo de redescoberta de um rolo de filme esquecido no fundo do baú, condenado às traças e ao esquecimento. E é justamente o depoimento de Farkas que contextualiza a imagem e faz dela mais bela.

O olhar de Farkas sobre aquelas imagens, sem sobra de dúvidas, foi vivo e ousado. Sua história particular quando exposta, tornou aquele momento coletivo, imortalizou o olhar jovem de um já idoso e respeitado fotógrafo brasileiro. O mais interessante é que nesse processo nos deparamos com um fotógrafo experiente dialogando com aquele garoto entusiasmado de décadas atrás.

Pena que o documentário se alongue demais em descrições sobre a vida do próprio diretor. Mas tudo bem, o mais importante ali não é nem a história, mas sim o filme redescoberto. A história foi só um pretexto para que o público prestasse atenção naquelas belas imagens.





Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo – “Para além das telas do cinema”

22 02 2008

Texto originalmente publicado em agosto de 2007 no blog Kinoforum Crítica Curta.

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PARA ALÉM DAS TELAS DO CINEMA

O Panorama Brasil 9 do festival é sempre reservado a uma seleção de filmes universitários do Cinema em Curso com maior destaque. Esse ano, ao assistir a sessão, me deparei com “Alphaville 2007 dc”, um filme que chamou não só a minha atenção, mas também de boa parte do público que participava do debate do Cinema em Curso que aconteceu dia 27 no MIS. O filme foi bastante comentado no dia, e Paulo Caruso, diretor do curta, estava entre os debatedores da mesa.

Durante o debate, levantei uma questão que gerou certa polêmica. Comentei que desde que participo do festival, vejo grande recorrência de filmes intimistas, que tratam de questões e angustias particulares. Acrescentei que sentia falta de filmes que tratassem de temas políticos com maior combatividade, que fossem mais agressivos e vivos. “Alphaville 2007 dc” é justamente o tipo de filme do qual disse sentir falta. Ele questiona, polemiza, critica. O filme é recheado de ironias, satirizando o medo e o isolamento da classe alta moradora de Alphaville, bairro afastado de São Paulo cercado de câmeras e seguranças. Fala dessa mesma classe alta que se esconde atrás de altos muros, grades e cercas, que vive uma vida ideal em meio ao caos e a violência urbana.

Para além do bairro de classe alta, Alphaville de Godard também é referência no filme de Paulo. No elenco, além de Datena, ícone do sensacionalismo policial na TV, também a ex-dançarina do Tchan, Sheila Mello.

Longe de querer ressuscitar Glauber Rocha e o Cinema Novo, um cinema que dialogue para além das angustias, medos e anseios particulares é de extrema importância. Se no Festival Latino ocorrido no mês passado o público se mostrou indignado e vaiou políticos em discurso, ainda penso que essa indignação pode extrapolar as vaias e invadir as telas. Filmes como “Alphaville 2007 dc” fazem a diferença quando polemizam questões atuais de forma inteligente, são filmes que extrapolam as telas do cinema para gerar discussão, reflexão e (porque não?) mudanças.





Festival Mix Brasil – “Humor com poucas gargalhadas”

22 02 2008

Texto originalmente publicado em novembro de 2006 no blog do Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual.

HUMOR COM POUCAS GARGALHADAS

“Seis e Quinze na Estação” é uma comédia assumidamente escachada. Sem grandes pretensões, o filme cumpre com sua proposta em ser engraçado e bizarro, beirando o ridículo.

O enredo gira em entorno de Karin Höhne, uma senhora aposentada que presencia um assassinato em um trem. Ela tenta contar à polícia, mas ninguém da ouvidos a ela. Karin passa então a investigar o caso sozinha, procurando pistas e suspeitos. Suas pistas a levam a um salão de cabeleireiro. Ela passa, então, a trabalhar no salão e começa a descobrir grandes segredos do mundo da beleza.

O filme faz piadas sobre uma suposta peruca de Marlene Dietrich e também sobre novas técnicas de beleza como o botox. Brinca com a queda do muro de Berlim, a polarização da Alemanha e o nazismo em um ambiente noir de investigação e mistério.

Sem sobra de dúvidas, um filme bem feito; entretanto parece que não obteve muito sucesso na sessão do Mix Brasil em que foi exibida. As gargalhadas foram apenas de alguns e muitos foram embora no meio da sessão. Por se tratar de um filme alemão, com piadas e referências próprias àquela língua e país, o diálogo com o público brasileiro se tornou difícil. Talvez os espectadores esperassem um humor que fosse mais de encontro com seu dia-a-dia.





Festival Mix Brasil – “Em meio a mudanças”

22 02 2008

Texto originalmente publicado em novembro de 2006 no blog do Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual.

EM MEIO A MUDANÇAS

Sem sombra de dúvidas um dos melhores filmes do festival. C.R.A.Z.Y. mostra a vida do jovem Zac desde sua infância, explicitando seus traumas, medos e anseios. Uma infância e adolescência solitárias, perdida em meio a pensamentos, divagações e angustias.

Elementos-chave atuam com peso dentro do filme, como o fato de o garoto ter nascido justamente no dia de natal. Ter que assistir a missa do galo todo aniversário não é, nem de longe, o maior desejo de uma criança. Mais do que isso, o medo e a culpa impostos pela fé cristã ficam evidentes no desenvolvimento do personagem ao longo do filme.

Ainda em relação a fé, o filme flerta com a religiosidade da mãe de Zac. Ele é visto pela família como especial, capaz de curar queimaduras e sangramentos através da oração. A mãe, católica convicta, busca respostas para o “desvio” do filho na religião.

Entre a moral, a igreja e os desejos de uma adolescência turbulenta, Zac cresce e se desenvolve em meio a traumas e magoas. Seus desejos emergem e suas vontades ficam cada vez mais evidentes. Zac nega sua homossexualidade para se adequar aos moldes da família tradicional.

Muito mais do que apenas evidenciar fatos e narrá-los com emoção, o roteirista e diretor do filme, Jean-Marc Vallée, busca as raízes da opressão sofrida por Zac. A moral, a tradição, a família e a religião são elementos de extrema importância dentro do filme, pois evidenciam a decadência da instituição familiar tradicional, colocando em xeque valores solidificados por gerações.

Não por acaso, a década de 70 foi escolhida como palco para as mudanças do personagem. Um mundo fortemente polarizado pela guerra fria, a liberação sexual, o feminismo em alta, as drogas e uma efervescência cultural mundial impulsionada por grandes sonhos de mudanças.

Em um período turbulento da história mundial, Zac vive a intensidade de suas transformações rompendo barreiras. Barreiras estas ainda persistentes em nome de uma moralidade há décadas ultrapassada.





Festival Mix Brasil – “Em meio a decadência”

22 02 2008

Texto originalmente publicado em novembro de 2006 no blog do Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual.

EM MEIO A DECADÊNCIA

“A Recepção” foi o primeiro filme do festival que assisti, e um dos últimos sobre o qual estou escrevendo aqui no blog. Sem sombra de dúvidas, um dos filmes mais interessantes que pude ver. Apesar de um final que não condiz com o desenvolvimento crítico apresentado pelo diretor, o filme consegue ser um retrato bem elaborado da classe média intelectual nova-iorquina, e que, ao que tudo indica, pouco difere da classe média intelectual paulistana.

Janette e Martin vivem em uma casa isolada e pacata de Nova Iorque, em meio à neve e muito silencio. Ela é uma rica mulher de meia idade, alcoólatra e financiadora de Martin, um jovem artista plástico. Tudo muda na vida dos dois quando Sierra, a filha de Janete, visita a mãe para anunciar seu casamento. Ela leva consigo seu futuro marido, Andrew.

A partir da visita de Sierra e Andrew, emergem segredos, tabus, desejos e vontades. A intimidade da relação familiar rotineira torna-se explosiva na medida em que esses segredos e desejos vêm à tona. A conturbada relação de mãe e filha passa a ser revista. Martin e Andrew se aproximam e passam a ter um caso.

Mais do que uma aventura homossexual, “A Recepção” narra uma decadente classe média nova-iorquina. Em meio a festas, vinhos e um aparente discurso libertário, tornam-se evidentes as vontades reprimidas e a arte falida expressa no jovem Martin.





Festival Mix Brasil – “A diversidade e a moral”

22 02 2008

Texto originalmente publicado em novembro de 2006 no blog do Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual.

A DIVERSIDADE E A MORAL

“Boy Culture” segue a saga do romântico garoto de programa X. X vive em um apartamento com Andrew e Joey e é apaixonado por Andrew. Joey, um inconseqüente adolescente, é apaixonado por X, formando os três desta forma, um triângulo amoroso.

X segue a saga do herói, passando por provações e contratempos. Encontra seu mentor em um senhor que contrata seus serviços de garoto de programa, e que vai, aos poucos, envolvendo o personagem e o espectador em uma atmosfera romântica.

O filme gira em torno dos conflitos e da busca do protagonista por um grande amor. Temas como a moral, a família e a religião estão fortemente presentes em um tom de aparente normalidade. A família nos moldes cristãos é posta como única alternativa para a felicidade.

O filme condena o sexo por prazer, nega as pegações, banheirões e boates. Coloca as práticas do sexo livre como promíscuas; nega outras formas de amor e relacionamento que não aquelas já muito bem definidas e instituídas.

Ao fazer isso, Allan Brocha, diretor do filme, nega a diversidade, a pluralidade e a livre expressão. Reduz a discussão GLBT a uma mera questão de gênero. Transpõe para o universo gay tudo de mais conservador que há na sociedade.

Um filme suave, de fácil digestão; recheado de clichês e fortemente conservador.





Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo – “Da crítica ao folclore”

22 02 2008

Texto originalmente publicado em agosto de 2006 no blog Kinoforum Crítica Curta.

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DA CRÍTICA AO FOLCLORE

O documentário “Mataram meu Gato” começa muito bem. O tema parece ser polêmico! Ex-moradores de uma favela do centro do Rio de Janeiro falam sobre como foram expulsos da região. Um incêndio criminoso os obriga a ir para uma área afastada, chamada Nova Holanda. No antigo local, é construído um conjunto habitacional para a classe média.

Um contraponto feito na edição entre a versão dos moradores e a versão oficial, divulgada pela grande imprensa em telejornais da época, dá um tom crítico ao filme. Até aí tudo vai muito bem.

Mas um clima conformista passa a tomar conta do documentário. Um dos entrevistados chega a dizer sobre o incêndio criminoso: “É o custo do progresso”. A crítica, antes bem construída, dá lugar a um lado sentimental. A escola de samba Mataram meu Gato, título do filme, passa a ser o foco principal do curta. A abordagem inicial não é mais retomada.

Critiquei há alguns dias o filme “O Monstro” no texto “‘O Monstro’ e ‘O Progresso’” aqui no blog. Nesse caso, a visão de progresso dos grandes centros foi colocada em questão. O trem que vinha da cidade grande passava pela cidade pequena e atropelava o sossego de seus habitantes. Em “Mataram meu Gato”, a visão de progresso e a ambição das classes média e alta mandou os moradores de uma favela do centro para bem longe.

O filme não deu lugar para revolta e indignação; acabou sendo passivo e conivente diante de uma situação de miséria, observando a cultura popular local, fruto da exclusão e da desigualdade, com um olhar folclórico. O contraponto traçado com a grande imprensa no começo do filme foi esquecido. Com um ótimo material para edição, mas sem um direcionamento, o filme se perdeu.





Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo – “Filha de peixe!”

22 02 2008

Texto originalmente publicado em agosto de 2006 no blog Kinoforum Crítica Curta.

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FILHA DE PEIXE!

Confesso que fui à sessão e nem ao menos sabia que passaria um filme de Ava Gaitán Rocha, filha de Glauber. Aos poucos fui conversando com algumas pessoas e percebi que a grande atração do programa era justamente seu filme “Dramática”. Mesmo com uma hora de atraso na projeção devido a alguns problemas técnicos, a grande maioria do público permaneceu na sala.

Antes de ver o filme, fiquei me perguntando por que tanta expectativa em cima dela. A crítica espera que a genialidade de Glauber seja hereditária, ou está rondando, à espera de um deslize?

Entrei despretensiosamente e saí maravilhado com o trabalho de Ava. O filme é redondo, bem acabado, sem arestas a serem aparadas. A fotografia é precisa e muda delicadamente do início para o final.

A personagem passa da apatia gélida e bem-comportada ao transe, à entrega, ao tesão. O filme toma crescente constante. O tom profético de um senhor gritando no meio de uma praça ao som de um forte batuque, o close no rosto da personagem e sua libertação dão ao filme seu ápice. A montagem dá o tom do filme! Erik Rocha também acertou em cheio!

Tentei falar com Ava após a sessão. Pena que ela já tinha ido embora… Quem sabe ainda não consigo uma entrevista dela para o blog?